A filosofia de ônibus voltou. Entro. Sento na cadeira da frente. Pego o melhor lugar. Atrás de mim um velho com chapéu do interior e barba de três dias. Meu egoísmo me conforta: “no meu lugar ele não teria pensamentos tão furtivos.” Egoísmo. Preconceito. Julgamento, enfim.
Sento-me na minha poltrona com vista para as avenidas e almas penitentes sob o sol do meio-dia na cidade da luz. Penso. Quantas poltronas no mundo para tão poucas idéias. Quantas cabeças vazias em poltronas realmente confortáveis... E mais: reclináveis. Quando eu tiver uma casa, terei uma poltrona vermelha para filosofia. Da mais barata a mais rebuscada. Sim, móveis vermelhos para contrastar com a minha apatia.
Os pensamentos acabam dentro de uma caixa de ferro furiosamente surrada pelos buracos no asfalto. Calor, barulho, tortura. O alarme da marcha ré é ativado. Sabe Deus por quê. Não pára. Os pensamentos são cortados. Dilacerados. E eu assisto a tudo da minha poltrona com vista pro chão. Para os anúncios nas paredes. Mendigos e vagabundos de suor reluzente. Da minha poltrona nada fede. Nunca mais eu levanto daqui.
sábado, 19 de maio de 2007
Assinar:
Postar comentários (Atom)
3 comentários:
Oi Camila!
Parece que encontrei seu blog em dia de inauguração =)
Bom, mas gostei do texto, o clima introspectivo e cotidiano; só mesmo o vazio de um onibus para
abrir um espaço tão reflexivo dentro de nós; acho que a falta de espaço físico dentro de um onibus cria um espaço ideal para as nossas divagações...
Quem sabe uma poltrona de onibus traga um pouca dessa solidão necessária para poder filosofar.
Só não queira trazer o calor e aquele agradável aperto de um onibus em pleno sol de meio-dia para a mobilia de casa, adverto que não seria saudável. hehe...
bjo, moça! saudades..
schwravos...
Inaugurando blog \o
Onibus fede.
Pra nao passar por este inferno destruiría-mos toooodos, e.... esperaría-mos comprarem novos =P
pelo menos conseguiria-mos uma desculpa pra não ir trabalhar, estudar, ou fazer qq outra coisa que nao seja filosofar numa cadeira vermelha.
ía-mos ar
Cidades e seus
pontos de conexao e encontros
entre os mais variados "socios" desta sociedade anonima que enche as ruas e becos... reflexoes sobre o amanha e sobre o hoje sobre o trocador ou a velhinha energias se cruzando como num campo minado e voce no meio sentado.... observando...
como que pelo canto do olho nao se compromete ...nem se arrisca...so assite e analisa.... e sempre uma posicao confortavel a analise externa e atraves dela comeca uma interna... quiças??
muito bom o texto.... afiado...
Postar um comentário