terça-feira, 19 de abril de 2011

define: superar.*


*texto extraído de um e-mail a uma amiga de infância.
**trilha sonora: "Hidaway" - Karen O and The Kids.

Lisboa, 19 de abril de 2011.

Você tem agora a opção de ler ou não este texto. De verdade, não é preciso.

Acontece que senti, de repente, transbordar em mim uma vontade de me expressar.

Uma coisa me é peculiar - e este auto-conhecimento eu adquiri após começar a estudar arquitetura - sempre que eu perco uma noite de sono, eu procuro me recompensar no outro dia... quase como um "siga em frente".

Estes dias eu tenho perdido várias horas de sono, primeiro porque a noite é um momento naturalmente solitário e é o momento em que a solidão é mais pesada e você não pode sair pra rua ou fazer qualquer atividade que te dê um momento genuíno de alegria - você só espera e dorme. Eu tenho esperado bastante, mais que o usual, e minha cortina quebrou poucas semanas depois de eu me mudar pra cá, então todo dia eu tenho o sol me acordando já cedo. Isso ocasiona uma recompensa involuntária no dia seguinte, desta forma eu tenho produzido muito menos, tenho faltado a reuniões com minhas equipes portuguesas e trabalhado excepcionalmente pouco (tu tem ciência do meu volume de trabalho normal...).

Por outro lado, eu tenho me permitido explorar outras dimensões dessa experiência que é estar aqui do outro lado do atlântico (que eu ainda não toquei). Não tenho comigo um violão pra compor e acho que, como Portugal, estou com um déficit na minha produção... No entanto, a poesia dessas ruas tortas e o segredo que se aprende ao subir essas escadas (aqui eles constroem escadas nas ruas quando elas são muito inclinadas) têm, de certa forma, me preenchido e eu me considero em um momento de "licensa poética" - tirei licensa pra viver um pouquinho de poesia (que em Lisboa é imperatriz, isso não se discute).

Fico feliz pensando nisso e isso é como um refresco pras feridas ainda quentes que eu inevitavelmente tenho tido de carregar. Subir as escadas com feridas quentes é quase sempre bem duro, mas tenho criado resistência pra isso e perceber isso me faz sentir muito bem.

Tu é (peço licensa pra concordar o verbo errado) uma pessoa que esteve presente em outros momentos em que eu me deparei com sentimentos parecidos e agora eu quero compartilhar contigo: olha, eu acho que cresci, veja que coisa maravilhosa! Dessa vez não parece que minha dor vai mudar o mundo ou que eu deva escrever uma música ou uma carta muito triste pra exorcizá-la. Há momentos, sim, em que ela grita e eu preciso sufocá-la e pôr dentro de uma gaveta e fazer qualquer coisa pra ignorar (sim, há momentos em que se deve ignorar esses instintos quase animais, pelo menos tenho acreditado nisso). Mas em geral, tenho agüentado conviver com ela e comigo mesma.

Hoje foi mais um dia de pouca produção (mas é feriado e eu sou brasileira e feriado é sagrado - pelo menos tem sido pra mim nas bandas de cá) e depois de um tempo olhando a lua subir por detrás dos prédios baixos da minha rua, tomei um banho e busquei no google a definição do verbo "superar", porque têm me repetido muito essa palavra e me exigido essa postura, como se sem isso qualquer outra coisa fosse inviável... e eu não sei mesmo o que isso significa... bom, o google também não sabe, foi o que eu descobri.

Mas eu toco (ou toquei por muito tempo) de ouvido e outras vezes também já demonstrei perícia ao executar atividades que eu não sabia muito bem o que eram. Não é bem improvisar... É descobrir como faz, fazendo, e no final, de certa forma, saber fazer outra vez. Assim espero que seja com essa coisa que agora me pedem... Devo aprender a superar, superando - seja lá o que isso for.

No mais, tudo corre bem. Amanhã viajo - de carro pela costa norte de Portugal até Santiago de Compostela, na Espanha. É uma peregrinação em busca do caminho - pra mim o caminho é o mais sagrado de tudo.

Se tu tiver chegado até aqui, espero uma resposta tua.

Fica bem.




camila.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Esta noite tive um sonho estranho.
Sonhei que numa casa, ao nordeste do Brasil, litoral, havia um pasto com vacas.
Aconteceu um dia de uma das vacas começar a crescer desproporcionalmente às outras e à tudo ao redor. E por ser muito grande e forte não havia quem a domasse.
Ia caminhando ao seu passo irracional de vaca, com suas enormes tetas a derrubarem o que tocavam e suas largas patas a afundarem o chão.

Eis que ao fim de um dia, ainda mais crescida, como ao fim de todos os dias, tentou adentrar sua casa, que de súbito rompeu-se a não sustentar os passos da grande vaca, nem muito menos seu violento movimento de expansão para todos os lados.

Após tal acontecido, foi chamado o pescador mais nobre da redondeza, que muito habilidoso com cordas e marés teria ou força para a conter, ou bravura para morrer tentando.

Joga a corda o pescador ao redor do pescoço da vaca que se debate. É arremessado para todos os lados, voando preso por seu nó. Após algum tempo resistindo, a vaca quase que por entender, mais do que por cansar, para. Dobra suas pernas e deita. Para também o pescador que dorme espalhado em seu pescoço, agora cúmplice.

E encerra-se assim o sonho. Acordei com frio no meio da noite.
Me pareceu infantil e absurdo e logo voltei a dormir.


Lisboa, 11 de outubro de 2010.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

prelúdio para o manifesto calango

Há de se transfigurar a "realidade". Esta é a única saída para os nossos velhos olhos cansados e condicionados a ver a partir da nossa, ainda mais velha, vontade. Existe um mundo onde as coisas simplesmente existem. O mundo que permanece após fecharmos os olhos. Quando criança eu tinha o sonho de ver meus olhos fechados no espelho. Tinha uma fixação por ver através das coisas. Fechava a porta da geladeira com um dedo preso para que ficasse um furo que me permitisse ver lá dentro. Como as coisas devem se comportar quando eu não estou olhando? Convivia com essa sede por burlar meus olhos, meus filtros interpretativos, minha vontade. Tinha uma sede por excluir de mim meus contextos. Após consecutivas frustrações, eis que eu desisto. Talvez esse mundo seja mesmo opaco e cheio de paredes. Paredes móveis, talvez. Com cobogós ou brises... com furos através dos quais podemos ver quando há a luz exata e o momento exato de concentração ou de desconcentração. É preciso que o mundo se apresente a nós sem que esperemos resposta, mas nossa prepotência nos responde precipitadamente. Na confusão da sobrevivência, aceita-se qualquer verdade essencial de si mesmo. É preciso banir os filtros e para isso há que se ter todas as experiências do mundo, ou nenhuma. Estamos condenados ao meio termo. Um mundo onde nunca estaremos sós, mas seremos sempre singulares, tantos elementos não nos bastam na busca por essa completude. Para que se possa ver é preciso esquecer. É preciso fechar os olhos e olhar no escuro. É preciso derrubar as paredes que nos isolam do mundo à parte de nós. É preciso furar as caixas e sentir a luz. De onde vem, para onde vai, ou pelo menos por onde ela vai passar. É preciso ver diferente, não necessariamente reconhecer ou se dar conta disso, mas simplesmente ver.




*texto escrito em algum momento do ano de 2008.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

el camino es largo, pero tengo que seguir
aunque sea tarde en los hijos por venir
saque el pueblo del silencio
hoy es tu vez de vivir o morir.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Eightball

mais daniel clowes!



baixe a 1a edição da revista 'eightbal' do talentoso daniel clowes!
http://www.mediafire.com/?3zyjoxk41o9

para abrir o arquivo (extensão .cbr) você vai precisar de um software chamado "comical". nada que o google não resolva!

boa semana e feliz ano novo.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

phot-o-graph



desenho original de daniel clowes.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

série figuras nos ônibus



tem coisas na vida que me fazem sentir como coadjuvante de um filme.

por exemplo, entrar no ônibus errado junto com o casal mais estiloso da semana, quiçá do mês, ver a menina descer algumas horas antes do cara, sentir ele pedir pra ser desenhado enquanto olha neurótico pra janela a cada dois segundos no pior trânsito em muito tempo. estar numa manhã cinza e abafada em fortaleza (que nunca é cinza nem abafada) atrasada para uma palestra que no final de tudo nem vai acontecer, passando em frente a um fusca bege que está a venda por r$ 4500,00 e ver o cara estilo levantar e olhar o fusca em cada um dos seus detalhes e então você pensar "sai! eu passo aqui todo dia e vejo ele todo dia! eu cheguei primeiro!" e então você vê ele balançar a cabeça como quem diz "caro demais" e fica mais aliviada mesmo sabendo, no fundo, que você nunca vai comprar aquele fusca. então o ônibus pára de novo e vocês descem na mesma parada e você acha todo aquele estilo tão artificial que dá vontade de ser sempre desarrumada e sente vontade de desviar o caminho mesmo que desviar o caminho signifique dobrar uma rua antes do que você precisaria e você faz isso e exatamente quando você se vê há menos de um quarteirão de onde queria chegar o cinza vai desaparecendo e vem chegando um vento e no seu ipod começa a tocar uma música muito feliz...

esse mundo é mesmo estranho.

sexta-feira, 18 de abril de 2008


UM GAFANHOTO ENORME


A porta foi aberta. Havia, ainda, um vão imenso lá atrás daquela cortina, do pano branco. Solitário, em cima do banco, o pequeno aparelho disparava uma luz de cor diferente cada vez que alguém, do outro lado do pano, se mexia. Era como um tiro, transformando tudo numa cor só, mas, aqui de trás do pano, no breu, víamos apenas um raio e um clarão.

Tudo começa a rodar fazendo com o rastro um desenho estranho e bonito, circular, solto. A pequena fumaça, que na verdade eram só partículas do ar que movíamos ao rodopiar, apagava bem rápido, antes que pudéssemos entender bem que desenho era, mas, se nos projetássemos pra fora de tudo, distantes, poderíamos imaginar, dentro de nossas cabeças, o desenho real.

De fora, e vendo dentro de todos, eu percebi as cores diferentes e os desenhos diferentes que cada um imaginava. Mas não seria óbvio que fosse assim? De qualquer forma, enchi o peito de alegria e abri um sorriso. Percebi, no reflexo das cores, meus olhos brilhando e no reflexo do brilho dos meus próprios olhos, todas as cores. Nunca saíram daqui. Não eram tiros, eram só clarões, não importa de onde se olhasse.

Um dos clarões veio tão forte que ouvi uma música tocar. Um zunido, e, de repente um gafanhoto enorme rodopiava, dançando ao som do próprio canto, no ritmo das cores que explodiam nos clarões descompassados. De repente me encontro em pé. Tudo parado. As cores se esconderam em algum lugar. No início tudo parece desbotado, inerte, só percebo o contorno, mas, lentamente, a música vem voltando e as cores começam a se manifestar. Algo que eu nunca vi antes. Elas só parecem refletidas, mas eu não consigo perceber de onde.

Me deparo com uma parede enorme. Não vejo o topo, não vejo os limites, só vejo onde corta onde piso, e, ainda assim, não me atrevo a chamar de chão uma placa flutuante. À medida que a música vai ficando mais intensa, o desenho vai se definindo. Na parede nasce um jardim. As raízes vão crescendo, desenhando rodopios, desenhando o ritmo disso tudo, seja lá o que for. Preciso de um nome, pelo menos pras cores. As folhas de verde intenso brilham, refletidas de algum lugar que não sei qual é. Espelhos verdes com pequenos detalhes lilases. Fico em pé ainda algum tempo, contemplando aquilo tudo. Daqui não me projeto pra fora. Não sei de onde vem a luz. Não sei a cor real dos espelhos. Não entendo mais o ritmo. Não vejo mais de longe, não vejo mais por dentro. Fico em pé, olhando, estarrecidamente, a parede. Preciso, novamente, me mexer.

domingo, 16 de março de 2008

what the fuck is sonic youth?


quem dirá?

segunda-feira, 10 de março de 2008

na verdade eu não lembro como começou.eu nunca fui muito de falar, sabe? e todas as conversas me transbordavam ali naquele cantinho mínimo, na margem direita.eu pensava muitas coisas e colocava tudo ali, pequenino, mas não apertado.lembro também de quando me davam muito espaço. era como se eu não soubesse mais.ficava ali meio no centro, meio de lado. talvez eu ainda estivesse procurando aquele pedacinho de margem direita.eu fui me acostumando aos grandes espaços.mas contar assim não tem graça.uns anos depois eu ganhei um caderninho. assim, com todas as folhas em branco.e eu pensei: eu quero o caderninho mais bonito. e eu tinha vindo daquela aula em que disseram que beleza era verdade e eu acreditei.aí fiz daquele caderninho o meu diário sem palavras. era tudo como eu via e só.verdadeiro e bonito. o caderninho mais bonito.e até hoje eu venho procurando desenhar tudo assim, pra ser bonito e verdadeiro, tanto quanto meu diário.

a esperança

fatos verídicos do dia de hoje:

domingo, 3 de fevereiro de 2008

A mulher Maria

Um cheiro forte de óleo diesel impregnava o ar. O balançar do carro era cada vez mais insuportável ao passar pela estrada maltratada. Fazia muito frio. O barulho do motor, do vento, do movimento e a luz do sol que nascia a despertaram. Não que estivesse dormindo. Seria impossível dormir naquelas condições, mas passara as ultimas duas horas e meia, entregue a um estado de letargia, enquanto os quilômetros passavam em forma de nuvens, fios, postes de energia e a inércia a sacudia com as freqüentes alterações de velocidade.
Nos bancos da frente iam calados, sua mãe e seu irmão mais velho. Completamente desconexos e alheios a toda a situação, até que ela resolve sentar-se e, ele, ao ver que ela acordou, liga o rádio. Música sem emoção é o que sente. Rompe-lhe no peito, silenciosamente, o princípio do desencanto. Ela não podia suspeitar que morresse, ali, dentro dela, naquele momento, a alma de todos os artistas. Aquele momento de imparcialidade sepultou, sob o asfalto frio do início do dia, o propósito de todas as musas.
Ele olha sua mãe. Ela não está ali. Tem os olhos, a mente e o coração focados na estrada. O único sentido daquilo tudo é que saíssem dali. A casa ficava para trás, a família ficava para trás, mas acompanhava-lhe os filhos, transbordando esperança e vontade pelo dia que acabara de nascer. Cruzaram o último quilômetro da última cidade antes da nova terra que vos acolheria agora. Teriam, outra vez, uma casa. Teriam, outra vez, uma vida cheia de novas possibilidades. O cheiro de óleo tocava-lha como cheiro de plástico. De brinquedo novo. Era um presente que ganhava e dava aos filhos. Ali, finalmente, teriam paz.
Na solidão do banco traseiro, Maria, abraçava uma pequena mala que tinha servido de travesseiro nas horas em que tentou dormir. Tinha cheiro de perfume de criança e ela podia, agora, identificar. Via-se refletida no vidro do carro e reconhecia seus próprios traços. Os cabelos estavam desarrumados, o rosto um pouco inchado, mas ainda era ela. Sentia aquele cheiro de criança saindo da mala e isso a incomodava. Evitava pensar que aquele era seu cheiro, mas como estava ali, sozinha no banco de trás, aquilo não podia ser, senão dela. O cheiro de criança vinha, agora, mais forte de seus cabelos, de suas orelhas, de seus pés, de suas mãos. Aquilo a irritava. Não podia ser dela. Ela não podia mais cheirar a criança. Estava indo embora e crianças não vão embora. Crianças ficam em casa esperando os adultos voltarem da rua com presentes e histórias. Maria ia embora, e não podia ir sem deixar sozinha, em casa, a criança.
A mulher Maria entra naquela pousada que cheira a coisa velha. Não se parecia com a imagem que tinha feito durante os longos quilômetros que percorreram. Não parecia com sua casa antiga. Não parecia com o que ela esperava encontrar. Maria encontrava-se, mais uma vez com o reflexo que a mostrava descabelada e desfigurada. Que não era capaz de refletir nada que fosse bonito. A partir dali, esta seria a imagem com a qual Maria teria de conviver. O cheiro de criança chegara ao ápice do incômodo e ela rompeu em direção ao quarto onde dormiriam aquela manhã. Trancou-se no banheiro, abriu o chuveiro, lavou-se, como se tentasse limpar de si tudo o que ficara da ex-casa, da ex-família, da ex-vida. A mulher Maria não cheira mais a criança. Dorme seu sono adulto até o fim da tarde, quando entra, com seus novos desconhecidos, no carro onde jamais entrara antes e exploram ainda mais alguns quilômetros inexplorados e chegam à cidade de ninguém.
O apartamento tem paredes brancas e os quartos não cheiram a nada. Maria senta-se no chão frio e desfaz a pequena mala-travesseiro. Tira de dentro dela alguns brinquedos, papel, lápis de cor e os esconde no canto da parede. Na ausência de um armário, um imaginário serve. A mãe sobe com as outras malas. Não é muita coisa. Maria deita-se no chão frio e adormece com o colorido desbotado dos pertences da criança morta que velará seu sono.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

ré bemol com sétima menor

Eu acho que houve mesmo aqueles momentos em que a gente se permitia fazer de tudo. Era engraçado. Era muita experimentação. Nosso constrangimento quando descobríamos que não era bem aquilo. Porque, pelo menos pra mim, a transgressão quase sempre vinha com alguma dor. Ou por esforço, ou por eu glorificar demais aquela merda. Tudo tinha um gosto muito azedo. Doía. Mas era glorificante. A gente não sabia de nada. Eu não sabia de nada.

O fato é que muitas vezes a gente fazia coisas grandes, sabe? E quase nunca era do jeito que eu esperava há, há, há. Eu, apesar de tudo, tinha ideais muito puritanos. Eu sonhava alto. Sonhava que a arte poderia servir como um instrumento de renovação espiritual e na época todo mundo riria disso, sabe? Na verdade não. Eles iam fingir estarem sacando tudo. Iam se fingir de aliados, mas por dentro estariam gargalhando. Eles queriam chegar longe com aquilo, mas não sabiam nem pra quê. Você entende? Era tudo muito sem propósito. E eu estava naquilo pra sobreviver. Porque fora dali tudo me doía demais. Eu sei que talvez pra eles também fosse assim, mas eles eram fortes lá dentro entende? Eu não. Eu buscava significado em tudo. E você pode imaginar: eu era o retrato da frustração.

Quando eu entendia bem as coisas eu sabia que não tinha nada a ver com amor ou admiração. Eu ia me permitir sentir tudo aquilo. Era realmente como uma grande devoção. Eu ia fazer músicas sobre aquilo, ia escrever, mas se você se aproximasse demais eu chutaria. Como chutei.

A gente não ficava parado nunca. Era bizarro como sempre estava acontecendo alguma coisa e quando nada acontecia era tipo o fim do mundo. Eu precisava de movimento, atividade, não importa o que fosse. Eu não media nada. Não me importava aonde aquilo ia me levar, eu só não queria ficar aqui.

Mas disso tudo eu acho que aprendi a absorver as coisas sem ter a sensação de posse. Isso dá um poder absurdo, porque, uma vez que você não possui algo, não pode perder, certo? E absorver tudo isso é uma experiência única. Cá estou eu falando do passado, sem dor. Ele não é meu. Eu não tenho passado. Você não entende, né? Isto está ficando ridículo e quase sentimental. Vou parar. Não quero uma música tocando na sua cabeça.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

SACO DE PÃO

Me desculpa por começar a escrever assim depois de tanto tempo sem nenhuma boa razão aparente. Às vezes a gente senta aqui (e estou falando de mim agora) e percebe que ainda é o mesmo quarto, que a luz continua ruim e que esse teclado ainda vai me matar de tendinite. Não vou começar com minha hipocondria agora. Foi só algo que eu percebi. Às vezes dá vontade de comentar, sabe? Como daquela vez que você viu uma loja com o meu nome. Eu passava por ali tantas vezes na semana e nunca tinha reparado e agora já faz mais de um ano e eu reparo todo dia. Não que isso seja algo muito grandioso. É só uma espécie de vínculo idiota. Só pra você ter um pensamento quando não vier nenhum.
Você deve estar ainda se perguntando por que eu resolvi escrever. Tá. A verdade é que eu não estou escrevendo pra você. Não sei se você já fez isso, mas é uma coisa que eu faço às vezes (mas também sempre acabo dando um jeito de a pessoa descobrir a verdade no final). Isso de escrever pra tantas outras pessoas e mandar a carta assim “olha o que eu te escrevi”. Mas se um dia isto chegar até você, você saberá que é mentira, porque eu não mando cartas. Mas você também julga saber demais sobre mim. Seria precipitado pensar assim, meu bem. Eu escrevo dezenas de cartas por ano e se eu não mando, tenho meus motivos. Muitas vezes esse é um dos motivos. Pra quem mesmo eu estou escrevendo? O seu nome tem de vir bem no começo, senão tudo se perde e se confunde. Mas não há mal nenhum nisso. Por fazer assim eu sempre passo um tempão sem dar notícia e aí você para de lembrar de mim. Eu dou férias às suas lembranças. Só que agora é justamente pelo contrário que eu estou escrevendo. Porque esses dias eu não vi loja nenhuma com o seu nome, mas achei que seria importante comentar que ainda me lembro dele.
Hoje fui arrumar uma gaveta e lá estava, feita à mão, uma das cartas que eu tinha escrito, em parte, para você. E eu reli e entendi perfeitamente o que queria dizer. Eu achei que não entenderia mais. Nossa comunicação era estranha aquela época, lembra? Éramos cheios de peculiaridades. Mas, pasme, eu entendi perfeitamente. Começava assim, eu contando, como que num diário, sobre aquele texto que você tinha me mostrado. Mesmo que em nenhum momento eu fale isso claramente, eu me lembro. Eu vou explicando que quando eu comecei a ler eu não consegui me concentrar no que você queria dizer com ele (desculpa). No meio da leitura minha linha de raciocínio foi cortada pela constatação de que você gosta de escrever e isso era uma coisa que eu não sabia. Você já tinha me dito, mas eu não tinha levado muito a sério. Acontece que seu texto me fez perceber que você tem grande talento pra coisa e aquilo me fez te admirar, sabia? Eu vou falando isso na carta. É o sentido oculto que você não entenderia se eu tivesse te mandado e por isso eu não mandei e agora esta é uma memória a mais que eu tenho de você e que você não tem de mim.
Engraçado que no final tem um pedacinho de texto. Uma coisinha pequena e boba que eu te mostrei, mas fiz o oposto: disse que não era pra você. Disse que até poderia ser mas não era, não daquela vez. Não sei se você entendeu. É que eu não costumo mesmo deixar essas coisas bem nítidas “isso é pra você, isso é pra fulano”. Perde um pouco a graça, a magia. E, conhecendo você como eu conheço, você não sossegaria até entender o que me levou a escrever aquilo. Só a longínqua possibilidade de ter sido pra você já te fez me perguntar por dias. Depois não reclame por eu não mandar cartas e não venha me dizer que aquilo era você tentando me entender. Se tem uma coisa que você não fez com empenho foi tentar me entender.
Eu não. Te dei papel e caneta pra você desenhar. Sabia que você descobre coisas incríveis a respeito de uma pessoa ao observá-la desenhando? Eu também fui lá naquele lugar onde eu não conhecia ninguém e fiquei olhando como você se comportava com eles, velhos conhecidos. E até que eu me identifiquei bastante. Pena (ou sorte) que esse tipo de identificação não sustenta nada. Talvez você não saiba de metade das coisas, mas você nunca me levou com aquela história de “eu aceito você assim como você é”. Ora, isso exclui todas as minhas possibilidades de ser alguma coisa. Por isso eu te provocava. Queria te ver com raiva. Queria te ver não aceitar alguma coisa. Você é uma criatura bizarra, meu bem. Isso é fato comprovado! Quando não engole tudo, o bem e o mal de uma só vez, abre os braços e não segura nada. Se eu já soubesse não teria insistido uma só vez e teríamos passado um pelo outro nesta vida como desconhecidos jamais revelados. Sabe o que eu te diria depois de tudo? Pare com isso, ora! Tente entender um pouquinho da complexidade das coisas e das pessoas, isso te ensina bastante. Isso te faz valorizar coisas concretas e distinguir direitinho o que vai te fazer bem e o que não vai. Não aceite que te maltratem, grite mais alto que eles de vez em quando e não os abandone quando encontrar algo que não puder engolir. Às vezes as pessoas com quem você cria vínculos, por mais estúpidos que sejam, precisam de você.
Mas não me leve tão a serio. Esta carta não é pra você. Até que poderia ser, mas não é. Não desta vez. Eu não tenho mais nada a te dizer, lembra? Ok. Desculpa por ter levado o assunto a um nível dramático demais, mas eu precisava falar.
Sabe? Teve outra coisa que me fez lembrar você esses dias. Eu passei na frente de um bar decadente. Eu no carro e era domingo. Não lembro bem pra onde estava indo, muito menos o que foi que me fez lembrar, era uma placa, lembro disso. Mas lembro mesmo que dei uma gargalhada e foi engraçado. Faz sentido eu comentar se eu não lembro o que era? Tá. Não comento mais. Só queria terminar a carta com uma gargalhada, ao invés de um conselho. Conselhos não valem nada. Gargalhadas valem muito.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Lelé

Eu tinha me decidido a não tirar o dia para fazer nada hoje. Eu queria mesmo fazer alguma coisa de útil pra minha vida. Eis que eu saio e o sol vai me esquentando, e é de manhã e eu tinha desistido do café e eu queria mesmo era que alguma coisa fosse resolvida. Eu entrei lá naquele prédio, desci no terceiro andar e peguei o exame dela. Eu não ia abrir, mas eu precisava ter algum argumento, pra ela ou pra mim. Pra ela voltar ou pra eu deixar de ficar querendo que ela volte que é melhor que ela fique mesmo por lá. Eu acabo lendo o resultado e não é um bom resultado. Poderia ser pior, mas as coisas ruins às vezes são contadas com palavras estranhas que não parecem ruins à primeira vista. Palavras que não são de ferir, mas acabam ferindo, e essa foi a primeira decepção do dia. Porque isso jamais me servirá de argumento pra achar que ela deve mesmo ficar por lá um bom tempo. E eu jamais poderia falar pra ela e usar isso como forma de convencê-la a voltar. Porque dentre outras coisas isso seria muito feio e essa semana eu não quero fazer nada muito feio.
Essa semana eu tenho achado que o mundo inteiro é um lugar muito feio pra se viver, e o pensamento vem de quinta passada, que eu não me importaria em abrir mão de nada nessa vida, eu preferia mais que tudo isso ser uma pedra subaquática, ou ser uma gota de água no meio do mar porque assim, apesar de tudo eu seria parte de algo bonito e ela ficaria feliz a me ver de manhã. Porque minha vontade é grande e me dá vontade de chorar só de pensar nela, e ela é maior até do que a minha força, ou da força que eu acho que eu tenho pra mudar as coisas. E as coisas não querem ser mudadas e eu não posso forçar nada a ninguém nem ninguém a nada. Talvez eu só tenha que me aquietar e ocupar a cabeça com outras coisas. Mas eu não consigo. Eu não consigo procurar amenidades pra guardar aqui, porque nada deveria, pra mim, ser mais ameno do que eu mesma. Porque eu paro e fico pensando que uma vez meu corpo expulsou um piercing que eu fiz porque o seu organismo é feito para expulsar corpos intrusos. Mas se meu organismo começa a expulsar a minha alma pra onde eu vou? É o que eu tenho sentido. E é tão bonito sair dizendo por aí que não encontra lugar no mundo que talvez esse sentimento seja mesmo comum a toda essa gente, mas tem me sido cada vez mais nítido e exagerado a cada dia.
Hoje o meu avô me deu alguns presentes e entre eles estavam três macaquinhos pequenos. Um, tapa os olhos, o outro, tapa os ouvidos, e o outro, tapa a boca. É um símbolo da filosofia budista e significa “nada vejo, nada ouço e nada falo”.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

UMA CARICATURA

- Eu me pergunto se eles seriam capazes de entender os nossos termos. Digo, existe teoria eficaz sem prática? Se eles não viveram isso, se não viram isso, como poderão entender?
- O que te faz achar que eles não viveram isso? Pra mim eles não vivem NADA ALÉM disso.
- Talvez. Mas as coisas precisam ter algo diferente pra que você as veja, não? Senão vira tudo plano de fundo meio borrado, meio opaco. E algumas das grandes verdades ficam lá atrás enquanto muita bobagem com cara de nova brilha aqui na frente.
- Você precisa acalmar. Respire fundo de novo. Precisamos ter esperança neles, senão... Precisamos ter esperança neles, ora! O tempo está aí pra isso. De quantos socos você precisou pra ver?
- Às vezes eu fico pensando nisso... Será que eu sou tão sensível a ponto de a minha vida ter se tornado uma terapia de choque? Quero dizer uma ditadura... Talvez, no plano real, nada disso faça muito sentido pra mim. Mas depois de uns socos, afogamentos, tortura... Depois de tudo, isso tenha se tornado a mais pura verdade...
- Isso não cabe a mim... Suas verdades são suas. Mas você se considera mesmo tão sensível assim? Que terapia de choque teria sido maior que a sociedade de onde você fugiu? Maior que todos esses outdoors... Você precisa acalmar. O tempo está aí pra isso.
- O tempo... O tempo... Às vezes eu acho que preciso de mais ferramentas para senti-lo passar... Toda vez que eu cresço eu volto a ser pequeno.
- Nem sempre.
- Pra você é fácil falar. Tudo muda quando se tem filhos. Não sei quanto a você, mas pra mim o desespero vem de uma solidão tão grande que me faz querer adotar o mundo inteiro. Perceba aí o teor egoísta de tudo. EU quero salva-los.
- É bonito pensar assim, mas você sabe que eles estão destruindo a sua casa.
- Isso é verdade.
- E que talvez você queira “salvá-los” para que mudem, não por outra causa maior, mas porque eles estão DESTRUINDO a sua casa.
- Cada vez que entram tiram tudo do lugar, quebram louças, fazem barulho... às vezes acho até que estão...
- Que estão...
- Deus me perdoe...
- Que estão...
- Roubando! Essas coisinhas pequenas têm valor... Não falo em dinheiro não, mas um dia desses, eu fui visitar a casa de um deles e você não queira saber o que eu encontrei... Uma das louças, já meio gasta... Lá na cristaleira, que era como se fosse uma vitrina. Claro que eu reconheci assim que bati os olhos... Não queria ter de acreditar nisso, mas acho mesmo que estão roubando.
- Você sabe que eles estão. Você sabe que a casa deles virou vitrina. Você sabe que as coisas que mais brilham neles são roubadas ou copiadas. Eles são agora anúncios ambulantes de si mesmos, e o que é pior, dos outros.
- E como você me pede pra acalmar? Isso não pode continuar!
- Se não quiser que roubem da sua casa, feche sua casa. Se a invadirem, ponha um portão.
- E eu vou ficar presa aqui dentro...
- Você precisa se defender. Precisa estar segura pra se acalmar, é o primeiro passo.
- O que os olhos não vêem...
- Você continuará vendo, continuará sentindo, não se subestime. Mas estará segura.
- Quando eu ficar em casa terei crescido além deles e não poderei mais fazer nada, eu vou explodir.
- E se insistir em sair, corre o risco de se tornar um deles. Dentro da sua casa existem milhares de caminhos que você desconhece.
- Preciso acreditar no que eu não vejo.
- Precisa ver o que não espera. Vamos lá, eu te conheci mais criativa.
- Conheceu mesmo... E esta minha apatia é sintomática.
- Se eu estivesse um pouco mais pessimista veria até os primeiros traços...
- Não brinque com isso!
- Estou falando sério! Mas, acalme-se. Preste bem atenção. Antes de ser tomada por este espírito jovem metido a transgressor, de onde vinha sua orientação?
- Dos mais velhos?
- Dos mais crescidos, certo?
- Dos que eu considerava mais crescidos...
- Dos que você considerava mais crescidos. Certo. E depois, mesmo quando já tinha crescido um pouco, de onde vinha a sua orientação?
- Dos iguais a mim.
- Tem certeza?
- Claro. É a base da adolescência, não? “Não ouça seus pais, ouça seus amigos.”
- Mas você era igual aos seus amigos?
- Eu queria ser...
- Exatamente! Você queria ser! Eles estavam alguns passos à frente. Eram um pouco maiores. Ainda assim, por mais que você não pudesse ver você seguia orientações de quem considerava maior que você. Mas não fique chateada, é assim mesmo. É assim que nós funcionamos.
- Claro. Não posso seguir orientações de quem eu considero inferior... Mesmo que eu mude meu ponto de vista... Os pequenos se tornarão grandes e vice-versa... Você me entende!
- Entendo. Só que você está contradizendo suas atitudes.
- Não sei por que disse isso, mas não discordo. Eu estou mesmo ficando mais burra com o tempo. Quero dizer, quando você sabe o errado e faz o errado mesmo assim, você é burro em dobro, não é?
- Eu disse isso porque você diz que o seu ideal está acima disso tudo, mas você não consegue sair disso e se não tiver cuidado vai se tornar um deles. A apatia é o primeiro passo.
- Foi o que eu pensei... Cada vez que eu cresço me sinto mais impotente e quero dar passos pra trás, mas eu não posso sem me contradizer ou me tornar um ser ainda mais estúpido do que eu era antes e ainda mais estúpido do que todos eles.
- Uma caricatura...





quinta-feira, 6 de setembro de 2007

O Mar.

Pulou, então de pés juntos. Poderia ter segurado os joelhos, mas preferiu erguer os braços com se quisesse prolongar-se por toda a extensão desde a rocha até a água. Voou por alguns segundos até tocá-la. Primeiro com os pés. Depois com tudo o que de seu corpo não havia ainda se molhado. Era fundo. Enormes bolhas projetavam-se lentamente para fora de sua boca e explodiam à superfície. Bradou, ainda que sem voz, alguma frase inaudível e indecifrável.
Com o rosto maravilhado diante do espetáculo que presenciava ao seu redor podia então perceber toda aquela vida subaquática que pulsava, dançava e acendia em fortes tons reluzentes. Todas as cores fundiam-se às suas pupilas. Sorriu. Escapou-lhe, então, mais três grandes bolhas que subiam defronte seus olhos – Vem dos meus pulmões e agora pertence à água – concluiu. Lembrou-se de que não fazia distinções entre ar e água – é a mesma coisa em diferentes estados. Lembrou-se ainda de que um terço de seu corpo era água. Mas não conseguia mais entender assim. Agora dois terços de água transformaram-se em corpo. Não havia mais diferentes estados depois que a última bolha de ar saiu de sua boca. Sentiu, mais uma vez, o próprio corpo em toda a sua extensão: cabelos, orelhas, dentes, areia, sanguessugas, bolhas e algumas plantas aquáticas.
Percebeu, então, um fio de vermelho reluzente que saía de suas costelas desenhando longas espirais que dançavam ao passo que diluíam em água, ganhando um tom róseo à medida que se distanciavam de sua origem. Tocou o furo que acabara de se abrir em seu tronco enquanto voltava, levemente, à superfície.
Com os olhos fixos nas nuvens ao longe, sorriu radiante. Um sorriso lento e involuntário que se abria largamente com o ritmo do vento frio que lhe tocava, agora, desde a cintura, até o topo da cabeça. Retirou a mão do ferimento e observou cuidadosamente as pontas dos dedos vermelhas, assim como seu braço que se avermelhava com as gotas de sangue-água que escorriam. Pintou os próprios lábios com as os dedos trêmulos e gelados de sabor metálico e vermelho. Sabor vermelho-metálico – pensou.
Entregue a toda a vida que percebia, os cabelos derramavam-se sobre a testa, orelhas, rosto, e costas. Baixou ainda o olhar para ver as pupilas que se dirigiam às suas e pronunciou, com toda a verdade que guardava em si: – é tudo lindo.
Voltou então ao mundo submerso ao qual pertencia agora. Era seu o mundo inteiro e era agora todo o mar.

domingo, 24 de junho de 2007

PARANÓIA DE BÚFALO

Eu paro e fico pensando que talvez alguns dos próximos passos sejam prejudicados por coisas que eu ainda não fiz. Só paranóia mesmo. Eu não acredito inteiramente nisso. De uma forma ou de outra eu fico pensando que talvez eu não consiga ir muito longe antes de voltar e fazer o que parte de mim acha que eu deveria ter feito. Ignorar a atitude madura de ficar em casa e ficar calada e agir sobriamente, nem que isso signifique não estar propriamente sóbria – dói menos, né? Dizem... – ignorar a atitude superior – nessas horas é preciso ter classe, não se alterar – e fazer logo tudo errado e impulsivamente, sabe-se lá por quê. Só pra acalmar a paranóia, destruir a possibilidade e transformá-la em fato. O problema nem são os fatos consumados. Talvez nem a frustração pelos não consumados, porque, como dizem por aí, tudo passa, até a frustração. Principalmente quando vem com uma pontada de raiva. Digo raiva mesmo. Raiva crua, raiva nua, raiva pura. Provoque um búfalo e espere a reação: ele vai se defender e atacar porque vai sentir raiva. A frustração passa mais fácil quando vem com essa raiva pura de búfalo. E nessas horas eu lamento não ser búfalo. Tem tantas coisas... Tantas obrigações sociais, morais, éticas, espirituais. Duvido que um búfalo pague por isso. Ele passa por cima do seu carro, quebra tudo, desconta tudinho mesmo, não guarda mágoa, de imediato ele acaba com o peso e quem sabe até com a raiva e nem por isso podemos julgá-lo mal. Mas usamos essa máscara burra de humano para fingirmos que não somos animais e que não sentimos raiva de búfalo porque temos classe. F***-se a classe, o búfalo é mais feliz. Qualidade de vida, entende? Enfim, como eu ia dizendo, o problema não é o que houve ou o que não houve, até porque depois que você sabe que passou mesmo (e de fato passou) pouco importa o que aconteceu, veste-se logo de uma vida nova e fica-se sorrindo feito bobo, contemplando as novas possibilidades. O problema mesmo são as fagulhas. O restinho de existência que não vai embora. Tem até umas teorias científicas que dizem que um pedacinho de energia sai do seu corpo quando você morre e continua por aí. Fagulhas. São uma m*** – perdoe-me o palavrão – todas essas fagulhas que ficam, tipo o nome da rua que é igual ao do irmão de uma menina que estudou com você há onze, doze anos, e que você poderia muito bem ter esquecido, mas não esqueceu, o número do telefone que é igual à placa do carro na sua frente por uma hora e meia no engarrafamento, a música que toca numa propaganda estúpida que você teve o azar de chegar bem na hora que estava passando na casa de não-sei-quem-que-quase-não-tem-influência-na-sua-vida, mas a propaganda tinha que ter aquela música imbecil pra acabar com o seu dia, porque, como sabemos, fagulhas acendem com o mínimo ventinho e o mínimo carbono. E o pior, depois da raiva de búfalo e das obrigações sociais, morais, éticas e espirituais que te impediram de gritar, passar por cima do carro e quebrar tudinho, as fagulhas acendem sem luz, sem calor, vão só consumindo a imagem bonita de vida nova e desmanchando seu sorriso bobo de quem contempla as novas possibilidades, tipo fogo da gasolina de carro de corrida. Não fossem as malditas fagulhas, tudo estaria lindo. As fagulhas que trazem a paranóia de que pra destruí-las eu tenho que voltar e tratar a minha raiva instintivamente como se eu fosse búfalo – e quem sabe eu até seja – e passar por cima do carro e gritar e quebrar tudinho. As fagulhas, literalmente, filhas-da-p*** é que me fazem pensar que talvez eu empaque, e, por não ser búfalo, vire asno, e não dê um passo à frente e fique repetindo as mesmas possibilidades a partir das mesmas coisas estúpidas e não faça mais nada se eu não voltar fizer algo. De qualquer forma, eu não acredito inteiramente nisso. É só paranóia de búfalo.

domingo, 27 de maio de 2007

O Conto.

*O texto a seguir foi escrito em janeiro de 2007.




Não existe felicidade roubada. A verdade é que está tudo dentro da sua cabeça, tanto quanto uma pílula de açúcar o faria sentir coisas inimagináveis. Tanto quanto você mataria e morreria em nome de Deus. Tanto quanto acreditaria a vida inteira que o céu é azul, ainda que fosse incapaz de distinguir cores. Fatalmente sugestionado a acreditar no que - do fundo de sua essência - quiser. No que for mais cômodo, mais poético, mais polêmico, mais bonito. Como se o mundo inteiro fosse mero cenário de um conto que você criou. As pessoas são meros personagens, que, para sua tristeza, você não pode controlar. Sequer prever. Andam por aí se preocupando em como interferir. Em como mudar o rumo das coisas. Especulando sua vida, até que as cortinas se abram e chegue a hora de participarem.
Mas nada disso é verdade. A realidade é que os acontecimentos fogem ao controle das suas idéias. As atitudes alheias são alheias à sua vontade e, raramente levam em consideração a sua existência. As pessoas andam por aí chutando pedras, pisando em folhas secas, movendo poeira e partículas e, às vezes, acabam atropelando você. Sem o intuito, por tantas vezes, sequer percebem. Quantos jamais calculam... Pensar é tarefa árdua e leva, constantemente, a enganos. Enganos que riem do seu conto particular. Riem da sua dor, da sua poesia, da sua beleza, do significado da sua vida inteira. O fazem parecer poeira, partículas.
Tão pequeno é você diante disso. Do curso natural das coisas. Do tempo dos outros, que por tantas vezes atropelam o seu. Não, não se sinta tão importante. Não foi premeditado. Não foi calculado. Simplesmente aconteceu. Ainda que doa. Ainda que tenha derrubado suas paredes. Ainda que tenha lhe levado embora a fé na vida. Não foi calculado. Nada tem a ver com sua vontade. Os casos de crueldade não se encaixam aqui. Não no destino descontrolado e apressado. Mesmo que tenham pensado em você, se preocupado, tudo foi feito da maneira mais decente possível. Ainda que não pareça. Ainda que afundados e rodeados por toda essa lama, nós, personagens do seu conto, tentamos fazer as coisas com o máximo de decência, para o caso de perdermos o sono alguma noite, algum dia. Precavidos contra a angústia, que em meio à lama onde estamos, acaba sujando seus pés, suas paredes, seu livro, sua pintura, e, raramente, nos invade. Essa angústia que o consome agora, nós não sentimos aqui. Fomos os mais decentes que pudemos e se você está fodido... É uma pena, pois não deveria ter escrito o conto assim.
Mas isso não é um conto. É um conto o que você sentirá com a lisérgica pílula de açúcar. É um conto a cor que usará pra pintar o seu céu. É um conto o nome que você dará à sua ânsia de matar e morrer. É um conto o inatingível centro produtor de idéias e conceitos dentro da sua cabeça. O que o anestesia e o fere diariamente. O freio e o grito instigante. Esse é o conto. Descubra como escrevê-lo. Aperte bem os olhos para fugir de você. Da sua maneira de ver as coisas. Cante destoando. Cante fora do tempo. Grite de madrugada. Simplesmente para ver como seria se tudo fosse diferente.
Mas, ainda assim, eu não acredito que essa fórmula funcione sempre. Talvez essa não seja a fórmula. Talvez essa não seja bem a maneira correta, enfim. Não posso dizê-lo. Não teria como escrever aqui. Mas descubra qual conto você pode escrever. Que parte da vida pode controlar. E, antes que todas as paredes desmoronem, antes que seu último fio de cabelo afunde na lama, antes que não possa mais ouvir a música de fundo, porque tem um choro gritando mais alto dentro de você. Antes que perca a vontade. Antes que deixe de se importar, escreva.